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22/10/2019

(Menosprezo)


Menosprezo
- © Lenise M. Resende -

Nesse último mês, tenho usado o tempo que permaneço na internet mais para observar do que para agir. E algumas coisas tem chamado minha atenção. Uma delas são as fotos de imensas livrarias ou bibliotecas dos mais diversos países, outra são as imagens de casas que possuem um canto de leitura, com uma estante abarrotada de livros amontoados, e pelo menos uma velha poltrona ao lado.

O engraçado é que esses dois tipos de fotos,  que costumam ser publicadas por editoras, atraem comentários de pessoas que afirmam que gostariam de morar num local assim. Tenho apreço por livros, mas, por mais que alguns desses lugares pareçam limpos e sejam bonitos, o máximo que eu conseguiria fazer seria visitá-los. Os lugares com livros amontoados de qualquer maneira, e a velha poltrona ao lado, me incomodam, porque parecem descuidados e precisando de uma boa faxina.

Está difícil vender livros. Estamos na época do "amo livros, mas não posso comprá-los", e "gosto de ler, mas estou sem tempo". E, nas revistas de decoração, essa tendência aparece estampada nas salas de estar, com imensas estantes dominadas por espaços vazios. "Se menos é mais...", eu teria economizado madeira fazendo uma estante menor.

Não consigo ver as dificuldades como prenúncio de que dias melhores virão. No caso dos livros, se dias melhores chegarem, certamente será num futuro tão distante, que não estarei aqui para testemunhar. 

Cansei de escrever, cansei de tentar publicar, divulgar ou vender livros. Minha paciência está por um fio. Minhas páginas dedicadas a livros também estão por um fio, o mesmo fio que me prende a vida real, e que ainda não me deixou optar por escrever somente obras de ficção.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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12/11/2016

(Distimia, fobia, empatia)

A distimia, a fobia e a empatia
- © Lenise M. Resende -

Descrito como um romance psicológico sobre a distimia, o livro De Bem Com o Mal do Humor baseia-se nas memórias da autora e sua relação com essa doença. Portanto, quando na página 117 do livro a personagem diz: "Já tive uma longa fase de depressão maior, mas eu era bem mais independente e ativa do que atualmente. Por pior que eu estivesse conseguia sair de casa, e sozinha. O isolamento e a dificuldade para sair são características da fobia social. Depois que a fobia cresceu, raramente saio de casa e, mesmo assim, quando sou obrigada.", ela narra a ocorrência simultânea de dois transtornos: a distimia e a fobia social. E, tanto a distimia como a fobia social, são transtornos reconhecidos como altamente incapacitantes, que frequentemente restringem as atividades sociais dos portadores.

Em geral, as pessoas que já leram o livro, percebem que, assim como a personagem, a autora tem uma vida social tão reduzida que, se não fosse a internet, seria inexistente. Mesmo assim, algumas pessoas parecem imaginar esses transtornos como algo menor ou passageiro, e indagam se haverá um evento para o lançamento do livro ou uma noite de autógrafos. Quando ficam sabendo os motivos para que isso não aconteça, em geral reagem citando razões que, na opinião deles, justificariam esse "sacrifício". Só que nenhuma delas consegue ser mais importante do que a saúde emocional de uma pessoa.

Como a negação de uma doença é uma das várias formas de preconceito, fico em dúvida se seria este o problema, ou se seria falta de empatia e compreensão. Segundo o psicólogo americano Lauren Wispe, "o objeto da empatia é a compreensão, e o objeto da simpatia é o bem-estar do outro." Quando tentamos compreender as situações do ponto de vista de outra pessoa nasce a empatia por ela, mesmo que não provoque o desejo de ajudá-la.

Apesar de saber da existência de diversos autores nacionais, também portadores de transtornos emocionais, que estão publicando de forma independente, espero que pelo menos as pequenas editoras não incluam entre suas exigências para publicação de um livro, que o autor concorde em participar de um evento desses. Seria tornar o mercado editorial ainda menor para pessoas que já enfrentam dificuldades em outras áreas da vida, além da profissional.

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Nota 1 - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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Nota 2 - Para enriquecer estas linhas, coloco na sequência uma frase sobre Dalton Trevisan, escritor que não é dado a entrevistas, não gosta de tirar fotos, e de comparecer em eventos: "Quando crescer, como escritora, quero ser um Dalton Trevisan. Não para escrever igualzinho a ele, mas para poder ser escritora, somente." (Lenise M. Resende, em Desafio Dalton Trevisan do grupo Scripto de oficina literária, maio de 2005)
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05/07/2016

(Tudo bem)


Faz de conta que está tudo bem!
- © Lenise M. Resende -

Acredito que algumas posturas são aprendidas na nossa infância. E que, muitas delas, acabamos abandonando naturalmente, conforme vamos crescendo. Outras, porém, permanecem ajudando ou atrapalhando nossa vida.

Quando digo que são aprendidas na infância, é porque muitos pais acham necessário impor aos filhos um verdadeiro manual de bom comportamento.

Para livrar-se de situações constrangedoras, antes da chegada de uma visita, por exemplo, é comum que o pai ou a mãe lembrem aos filhos algumas regras de boas maneiras como: cumprimente a visita com um sorriso no rosto; agradeça os presentes; coma de boca fechada; não fale de boca cheia; não fale palavrões; etc., etc.

Se a visita vai dormir por um ou mais dias na casa, o filho que vai ceder a sua cama ou o seu quarto, será o mais doutrinado a ostentar uma expressão de agrado diante da situação.

Mesmo numa família que não receba muitas visitas, pode existir alguém mais sensível ou mais atarefado, e as notícias, principalmente as más, são constantemente adiadas ou ocultadas. E, para que a pessoa "sensível" não desconfie de nada, é preciso que os familiares se acostumem a ostentar permanentemente uma expressão de "tudo bem" no rosto.

Além disso, somados as regras sobre o modo de agir existem outros aprendizados feitos por simples observação. Um deles se refere ao vestuário usado pela família durante uma visita, que pode ser: roupas caseiras novas ou seminovas, e até mesmo as chamadas roupas de domingo ou de festa. Nessas ocasiões, as roupas manchadas, furadas e remendadas são escondidas. A casa também costuma passar por uma faxina, sendo depois enfeitada com objetos que só saem de seus respectivos armários nas datas festivas.

Depois de tanto ver essas ações e ouvir frases de incentivo ligadas à aparência, a pessoa vai se tornando expert na arte de enganar. Cara de doente, de aborrecimento, de choro, ou de tristeza são malvistas, portanto costumam ser escondidas ou disfarçadas. E sempre há alguém por perto dando dicas como: coloca um batom vermelho pra alegrar um pouco o seu rosto; usa uma roupa mais colorida que essa é muito triste. 

Em geral, o que começa como um comportamento fingido e restrito aos parentes, acaba se tornando automático e mais abrangente. Foi o que aconteceu comigo. Desde que me entendo por gente tento manter essa atitude de "estar bem", para não preocupar ou importunar os outros. É uma atitude automática, que só nos últimos anos começou a me incomodar.

Mesmo agora, que já reuni uma imensa quantidade de informações trazidas a superfície pela análise, sinto que necessito me aprofundar um pouco mais no assunto antes de tomar alguma decisão. Por enquanto, ainda sinto dificuldade em me mostrar realmente triste ou chorar diante das pessoas. Mas, sendo uma pessoa que há muitos anos declara abertamente ser portadora de depressão crônica (distimia), acredito que se fizesse isso não causaria surpresa em ninguém, e somente as pessoas mais próximas ficariam preocupadas.

Como não tenho tendência a me mostrar como vítima, não me custaria nada responder a indagação de "Como vai?" com um "Tudo bem!", mas em geral tenho respondido apenas "Mais ou menos!", sem maiores explicações.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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Blog Distimia Livro

08/06/2016

(Saindo do divã)


Saindo do divã
- © Lenise M. Resende -

Existem tantas expressões iniciadas com o verbo sair que, antes de mencionar algumas delas, precisei buscar ajuda nos dicionários (Aulete e Michaelis) para organizá-las melhor:

. Sair às avessas é a expressão usada para descrever uma situação em que alguém se frustrou ou fracassou.

. Sair de si é a expressão usada para descrever uma pessoa que se irritou, e perdeu o autocontrole diante de uma situação desagradável.

. Sair de fininho, ou sair à francesa, é a expressão que descreve a maneira discreta usada por alguém que tentou sair de um local sem ser notado, ou sem se despedir. Expressa também a forma usada por alguém que discretamente evitou se envolver em algum conflito ou situação difícil.

. Sair da concha é a expressão usada para descrever uma pessoa que colocou de lado a sua habitual modéstia e acanhamento.

. Sair do armário é a expressão que descreve o anúncio público feito por alguém que decidiu revelar, à família e aos amigos, a sua orientação sexual.

. Sair do fundo do poço é a expressão usada para descrever a recuperação de alguém que esteve muito desanimado, abatido ou deprimido. Chegar ao fundo do poço, em sentido figurado, é o mesmo que chegar ao ponto mais difícil de uma situação.

. Sair do divã é a expressão que descreve o anúncio público feito por alguém que decidiu contar, à família e aos amigos, que tem um transtorno psiquiátrico. É tornar público um assunto que era falado apenas no divã, isto é, na sessão de psicanálise ou no consultório do psiquiatra.

Quando menos se espera, alguém sai com uma declaração inesperada, imprevisível, e nos surpreende. Em geral são artistas famosos que tomam essa atitude de sair do armário ou do divã.

No seu livro intitulado O Demônio do Meio-dia: Uma Anatomia da Depressão, o escritor Andrew Solomon escreveu: "Num livro que tem como um dos principais objetivos remover o estigma da doença mental, é importante não reforçar esse estigma escondendo a identidade de pessoas deprimidas. No entanto, incluí as histórias de sete pessoas que desejaram ser mencionadas por pseudônimos, e que me convenceram de que tinham um motivo importante para tal."

Foi muito sensata essa atitude do Andrew Solomon. Assim como muitas pessoas já se identificam como deprimidas ou distímicas, existe um número ainda maior de pessoas que evitam revelar que sofrem de algum transtorno mental.

No Facebook, por exemplo, existem muitos grupos fechados onde se oferece apoio, informações e oportunidade para desabafar aos portadores de transtornos psiquiátricos. Mesmo assim, só uma pequena parcela de membros se manifesta, seja por medo de que algum conhecido esteja no grupo ou qualquer outro tipo de receio. Mas para aqueles que não estão conseguindo verbalizar seus sentimentos faz bem ler o que os outros escrevem.

Graças as campanhas efetuadas pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a existência de preconceito contra os portadores de transtornos e deficiências mentais já começa a ser discutida nas redes sociais. E, mesmo que esse debate demore mais um pouco para chegar às famílias, esse dia há de chegar.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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06/06/2016

(Falando sério)


Falando sério!
- © Lenise M. Resende -

Nasci no dia 18 de janeiro, Dia Internacional do Riso. Sou de Capricórnio, e a maior característica das pessoas desse signo é a seriedade. Como a seriedade capricorniana não significa falta de humor, alguns humoristas brasileiros são desse signo. Mas, já que não acho graça em programas de humor, não sou fã de nenhum deles.

Apesar da seriedade assumida, sempre me considerei uma pessoa bem humorada, já que costumo rir dos contratempos do dia a dia. Só que existe uma grande diferença entre o considerar e o ser. E, sem que eu percebesse, na maior parte do tempo o humor deprimido é que predominava em mim. Sendo assim, foi com surpresa que descobri ser portadora de distimia, uma forma crônica de depressão, que foi reconhecida pela medicina nos anos 1980.

Assim como outras doenças, a distimia se manifesta de diversas maneiras, e a intensidade dos sintomas pode oscilar. Por isso, durante um período de remissão dos sintomas, me descuidei e interrompi meu tratamento. Agora, após uma recaída, estou retomando e, por esse motivo, tenho ficado pouco tempo no computador.

Para minha família, esse assunto não é novidade. Somente os amigos poderão se surpreender, pois raramente falo sobre isso. E, se agora estou falando, é por ter notado que a distimia ainda é pouco conhecida. Não há exames de laboratório ou radiografias que atestem sua existência. Aquele que é portador, sente o que tem, mas não pode mostrar aos incrédulos que o rodeiam. E isso o torna um alvo fácil dos conselheiros de plantão.

Um tratamento mais prolongado para qualquer tipo de depressão costuma despertar sentimentos negativos. O que não ocorre com o tratamento prolongado de outras doenças como hipertensão, diabetes ou asma. Colocar dúvidas sobre a capacidade de uma pessoa decidir o que é melhor para ela, não irá melhorar sua autoestima.

De boas intenções o inferno está cheio! - alertou São Bernardo de Claraval. Quem nunca teve depressão, não sabe a tortura que é ler determinadas mensagens com dicas, conselhos ou fórmulas mágicas. Acredito nas boas intenções de quem as escreve e na de quem as repassa. O que acho difícil é que essas pessoas acreditem o quanto elas podem ser dolorosas de serem lidas.

Se conselho não adianta, parece difícil, então, dar apoio aos distímicos e deprimidos. Se a pessoa já está em tratamento médico, só duas sugestões me ocorrem: paciência e respeito. Amor, carinho e outras formas de afeto, também, é claro!

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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06/05/2016

(Perseverança)


Perseverança
- © Lenise M. Resende -

A frase: "A cura não significa que a ferida nunca existiu; significa que ela não controla mais a nossa vida", me lembra uma outra muita citada nas redes sociais que diz: "A distimia não tem cura, mas tem controle". Mas, para compreendê-las melhor, é preciso rever o conceito que temos sobre a palavra cura. 

Assim como não existem feridas ou cicatrizes visíveis, não existem exames que comprovem a existência da distimia. Ela é uma das chamadas doenças invisíveis, e que provocam uma dor silenciosa. 

Como a cura da distimia ainda não foi encontrada, o máximo que se alcança é uma pseudo-cura ou uma grande melhora. Quando tratada adequadamente com medicamentos e psicoterapia, seus sintomas podem ser contidos, mas continuam existindo, e exigindo vigilância constante.

Controlar os sintomas da distimia não significa que estamos livres dela. Não adianta nada fazer uma mudança de hábitos radical durante a fase aguda, e depois, na primeira melhora, abandonar o tratamento medicamentoso, a terapia, e os cuidados. Para evitar uma recaída, é preciso, também, prestar atenção aos sinais de alerta, buscar ajuda médica, seguir o tratamento indicado, e frequentar a terapia.

Acredito que um problema emocional possa criar ou agravar um problema físico - e que a distimia é uma doença tanto física quanto emocional. Acredito também que a minha confiança, ou a falta dela, na pessoa que me receita uma medicação, influencia o efeito do medicamento em mim.

Confiança é um sentimento que cresce com a convivência. Mas como confiar num psiquiatra ou psicólogo que a pessoa viu só uma vez, trocou por outro, e depois trocou por mais um outro. Como acreditar em alguém que ele não conhece e que também não o conhece? Os psiquiatras e psicólogos são humanos - se eles não acreditarem na vontade de melhorar daquela pessoa provavelmente não irão investir no seu tratamento.

No livro De Bem Com o Mal do Humor, de minha autoria, a personagem diz na página 121: "Se eu tivesse que dar um único conselho a uma pessoa que acabou de receber o diagnóstico de distimia seria: 'Procure tratar-se com um psiquiatra em quem você confie. Ficou em dúvida - indague. Não gostou da resposta - mude a pergunta. Mas persevere tanto no tratamento quanto na confiança em si e no seu médico. E, diria o mesmo, caso essa pessoa fosse fazer também um acompanhamento psicoterápico."

Quem deseja dominar os sintomas de uma doença crônica como a distimia, precisa perseverar. A perseverança é o caminho das pedras para a melhora porque, mesmo que seja lento e difícil, é o mais eficiente.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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14/03/2016

(Mutismo)


Mutismo involuntário
- © Lenise M. Resende -

A distimia, também conhecida como o mal do humor, é um tipo de depressão que é menos intensa do que a chamada depressão maior, porém mais prolongada. Assim como outras doenças, ela se manifesta de diversas maneiras, e a intensidade dos sintomas pode oscilar. Porém, por ser crônica, frequentemente causa danos e perdas consideráveis na vida de seu portador. Por exemplo: uma dor de cabeça pode ser fraca ou forte, mas ninguém deseja viver com uma dor de cabeça permanente seja lá qual for a intensidade dela.

O termo distimia tornou-se um termo popular após esse tipo de depressão ser classificado na 3ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Americana (DSM.III), em 1980. Porém ainda é pouco conhecido pelos leigos em medicina.

Como os sintomas nem sempre são identificados e tratados adequadamente, costuma-se dizer que a distimia provoca uma dor silenciosa.

Como também é uma doença que não se mostra através de exames clínicos, costuma-se dizer que a distimia suscita uma dor invisível.

Ter uma dor que, além de ser silenciosa e invisível, é crônica, é arrasador.

A dor pode ser invisível, mas nós não podemos ser invisíveis: porque somos nós que damos visibilidade a dor. A dor pode ser silenciosa, mas nós não podemos silenciar: porque somos nós que expomos verbalmente a dor.

Mutismo ou mudez é a qualidade ou estado de quem não fala ou não quer falar. Mas, acabar com o mutismo involuntário, aquele que não depende da nossa vontade, é uma coisa necessária, se desejamos parar de transformar as dores emocionais em "dores reais". E se as denomino como reais é porque elas têm nome próprio, e são consideradas doenças. Diversas doenças clínicas, também chamadas de comorbidades, estão associadas à depressão. Uma delas é a fibromialgia, uma síndrome que se caracteriza por dor crônica em vários pontos do corpo.

As dores devem ser muito unidas, e conforme vão nascendo dão-se às mãos e se fundem. Juntam-se para formar uma só. Assim, uma dor vai puxando outra, que vai puxando mais outra. E gritar, gemer, ou reclamar só funciona como placebo para as pessoas que se sentem satisfeitas em se expressar dessa forma. 

Para quem prefere falar, escrever pode ser uma boa opção, quando não há com quem conversar. Escrever é terapêutico. Falar ou escrever sobre dor pode não diminuir sua intensidade, mas pode deixá-la mais compreensível, e até mesmo mais suportável.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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10/02/2016

(Invisibilidade)


Invisibilidade autoimposta
- © Lenise M. Resende -

No Dia Mundial da Fibromialgia (12/05) a imagem de um laço, que é um símbolo de solidariedade e de luta, acompanhado da frase "A dor pode ser invisível, nós não", foi divulgada na internet. Quando li essa frase, imediatamente lembrei da distimia, porque por maior que seja a dor que ela provoque, não pode ser vista por ninguém, e nem comprovada, pois não existem exames que demonstrem sua existência.

Porém, nós que somos portadores desse transtorno a sentimos, e podemos ser vistos por quem se dispõe a enxergar o nosso sofrimento, seja através do nosso rosto, da nossa postura, das nossas atitudes ou palavras. Mas, também somos nós, portadores desse transtorno, que evitamos mostrar o que as pessoas que convivem conosco evitam enxergar. E, por medo das críticas, distorções, ofensas e agressões, tentamos não demonstrar que temos essa doença sorrateira, cujas características muitas vezes são rotuladas como defeito. Um exemplo disso é a baixa energia para as atividades, que costuma ser confundida com a preguiça.

"A dor pode ser invisível, nós não." Somos nós que damos visibilidade a dor. E, quando conseguimos sobreviver a esse desastre chamado distimia, ficamos cobertos de cicatrizes (internas e externas). Mas falar sobre elas é uma coisa, mostrá-las é outra, bem mais difícil. Sendo assim, mesmo publicando um livro inspirado no Transtorno Distímico, continuei evitando tirar fotos.

Só agora, algum tempo após a publicação do livro, é que consigo enxergar as cicatrizes internas com mais clareza, e me sinto capaz de enfrentar os flashes de uma máquina de retrato. Quem sabe, após a publicação das fotos, eu comece a perder o medo de lidar com as cicatrizes externas, porque estou começando a me cansar dessa invisibilidade autoimposta.

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Nota - Crônica filosófica (reflexão a partir de um fato ou evento)
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20/07/2015

(Triste alegria)

 
Triste alegria
- © Lenise M. Resende -
 
Nos momentos em que a mente e o físico dão um descanso, e a vida colabora com um pouco de tranquilidade, chego a pensar que estou curada da depressão crônica. Chego a pensar que estou me tornando uma pessoa mais alegre e descontraída. Puro engano! A aparente solidez desse sentimento de contentamento é traiçoeira.
 
Como é triste essa minha alegria! Ela é tão frágil, delicada e fugaz. A alegria do portador de distimia é semelhante ao gelo fino que se forma sobre um lago congelado, e se rompe quando submetida a qualquer pressão. É apenas uma casquinha fina que encobre a tristeza, a ferida que nunca cicatriza.
 
Como é espaçosa essa doença! Por algum tempo sou até capaz de esquecê-la, mas ela está sempre presente aguardando um momento propício para se mostrar. E quando reaparece traz na bagagem o mau-humor, a irritação, a impaciência, e a lentidão no agir e no pensar.
 
Para espantar a tristeza, busco me alegrar com os motivos de quem estiver feliz ao meu lado, mesmo que eu precise dar uma forcinha para que isto aconteça. A felicidade e as demonstrações de alegria de quem está ao meu lado me faz bem!
 
No dia a dia aprecio demais a proximidade e o carinho daqueles que gosto. Mas nos dias "especiais", em que a distimia mostra seu poder destrutivo, viro bicho. Sou bicho preguiça, nos dias em que a lentidão e o sono dominam. Sou porco espinho, nos dias em que estou impaciente e irritada, e não quero ser tocada por ninguém.
 
Como é difícil escrever sobre esse assunto! O pior, quando se escreve sobre a distimia, não é a preocupação com a opinião dos outros. O pior é reler o que escrevemos, é ter que admitir que aquilo aconteceu conosco, que estamos relatando a nossa vivência. É preciso ter resignação - coragem e paciência - para aceitar que sofremos os efeitos dessa doença.

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Nota - A descrição dos sintomas da distimia baseia-se unicamente em auto-observação feita pela autora.
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19/07/2015

(Distimia chega à televisão)

 
Distimia chega à televisão
- © Lenise M. Resende - 

Em janeiro de 2014, o programa Mais Você fez uma reportagem sobre Distimia. Em 2013 o programa Bem Estar, também da rede Globo, já havia feito uma reportagem sobre esse tipo de depressão. Nos dois programas, o mau humor de uma pessoa mostrada como portadora da doença foi enfatizado demais, criando uma imagem caricata do distímico.

Se a distimia é um tipo de depressão, é necessário mostrar também esse lado da doença, e o sofrimento que provoca. "A característica essencial do Transtorno Distímico é um humor cronicamente deprimido que ocorre na maior parte do dia, na maioria dos dias, na maior parte dos meses." diz o psiquiatra Geraldo José Ballone, em Depressão e Relacionamento Pessoal, no site PsiqWeb.

Reportagens são sempre bem-vindas, principalmente quando o assunto é tratado de forma respeitosa, sem despertar risos ou lágrimas nos telespectadores. Afinal, os distímicos não desejam e não merecem ser retratados como um personagem de programa humorístico ou expostos como curiosidade num programa sensacionalista. 
 
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Nota - Crônica jornalística (apresenta aspectos particulares de notícias ou fatos cotidianos)
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